Terça-feira, 11 de Outubro de 2005

Ao meu Paulão!!!

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É uma maneira estranha de começar um artigo, mas este é o meu modo de comemorar o dia Mundial da Saúde Mental, que ontem foi celebrado. E vem mesmo a calhar, pois estou precisamente a fazer um estágio de Saúde Mental, no serviço de Psiquiatria Homens nos Hospitais da Universidade de Coimbra….e como preciso de desabafar com alguém, quero imortalizar esta história no meu Blog. Quem quiser le-la que a leia. Aqui vai:



Foi-se embora o Paulo.



O Paulo era o meu doente preferido, era um dos doentes com quem eu me dava imensamente bem. Apesar de apenas o ter conhecido à pouco tempo (apenas 2 semanas), nutri por ele uma grande amizade. Sinto que o ajudei a “curar”. Ele era como um irmão, gostava mesmo muito dele.



Tudo começou no dia em que eu entrei para o serviço. Ele tinha esquizofrenia e era capaz de ficar horas isolado no leito ou ficava no corredor, em pé, durante imenso tempo, a olhar para o vazio. Quando olhei para ele, fiquei um pouco com receio de interagir com ele. O Paulo apresentava um aspecto desorganizado, com um olhar desconfiado, mas olhando mais profundamente para ele, senti uma carência a nível afectivo e senti, por isso, que ele não era muito valorizado pelos Enfermeiros. Foi aí que senti que eu tinha que interagir com ele, pois de certo modo, eu era a pessoa que o podia compensar a este nível.



Decidido, avancei no segundo dia de estágio para uma conversação com ele e para meu espanto, senti que o interesse era mútuo. Ele via em mim um Enfermeiro amigo mais ou menos da mesma idade, com quem podia desabafar. Olhava para mim e sentia que eu não era apenas mais Enfermeiro que o mandava tomar banho todos os dias ou que passava por ele nos corredores e olhava para o lado, fingindo não o ver. A partir desse dia, criámos uma relação empática um com o outro, mas sempre tive medo de quebrar o distanciamento que a relação terapêutica obriga. Eu nunca consegui tratar o Paulo por “Você”, nunca consegui cumprimentá-lo com um simples “Bom dia”; eu tinha sempre que acompanhar esse mesmo “Bom dia”, com um “Dormiste bem?” ou com um “És grande”, para além de associar a estas expressões um forte aperto de mão com convicção, para ele se sentir seguro em relação à minha pessoa.



Falei com a Enfermeira responsável pelo Paulo, pois queria fazer o primeiro estudo de caso com ele (trabalho para a escola). A Enfermeira disse-me que era melhor não, pois ela dizia que ele não falava muito. Fiquei surpreendido, pois ele comigo falava imenso. Falávamos, brincávamos e até chegámos a inventar um cumprimento de mão, com que nós nos cumprimentávamos por vezes durante o dia. Foi então que eu me propus, em melhorar o estado de saúde do Paulo. Queria pô-lo a falar mais, para aumentar a sua auto-estima e a ser mais comunicativo, para depois realizar o segundo estudo clínico com ele.



O Paulo melhorava dia após dia e isso aumentava o meu Ego. Mas houve um certo dia em que eu tive muitas coisas para fazer e não o vi. Eram muitos cuidados de higiene, eram muitas colheitas de sangue, era muita administração terapêutica e eu não vi o Paulo. Houve um certo momento em que ele passou pelo corredor e eu estava a realizar os registos e só então é que vi o Paulo. Ele olhou para mim com um ar de zangado. Pensou que eu me tinha esquecido dele, afinal de contas eu nesse dia não tinha falado com ele. Senti-me mal. Eu queria falar com ele mas não pude. Foi um dia atarefado e eu por mais incrível que pareça, esqueci-me do Paulo. No final do turno, fui dar com ele deitado no leito. Ele tinha voltado a isolar-se e tudo por minha culpa. Tinha que voltar à “estaca zero”.



No dia a seguir, depois do pequeno almoço, fui falar com ele. Quando me dirigi a ele, disparou-me um olhar de resignação, tentou ignorar-me, mas enfrentei-o. Não pedi desculpas, pensei que se o fizesse estava a quebrar, mais uma vez, o distanciamento, que sempre tem de existir entre um Enfermeiro e um doente. Contornei a situação com um cumprimento, com uma ligeira conversa, tentando avaliar o que ele tinha feito no dia anterior e com um “ Portate bem” acompanhado com um sorriso nos lábios. Depressa voltei a ver o brilho nos olhos do Paulo. Ele encarou aquilo, como mais uma brincadeira entre nós os dois. Tinha recuperado a nossa relação amistosa.



A primeira vez que vi o Paulo a rir-se foi na sessão de Terapia Ocupacional de Ginástica. Disse-lhe que “Ele parecia uma bailarina” quando estávamos a fazer o aquecimento e ele sorriu. Fiquei contentíssimo, percebi que o meu trabalho com ele tinha atingido o apogeu. Consegui melhorar a sua auto-estima. A partir de agora, era só melhorar o seu estado clínico.



Pensei que era desta vez que ia fazer o estudo clínico com ele. Mas foi então, que recebi a notícia de que o Paulo ia ter alta. Mais uma vez o meu “Paulão” ia-me ser negado, mas desta vez ele ia voltar para casa. Recebi a notícia como uma “bomba”, por um lado estava muito contente por ele ter melhorado, por outro lado ia perder o meu amigo.



No último dia em que ele esteve lá internado, não em aproximei muito ele. Fiz de propósito, para avaliar se a nossa relação tinha sido proveitosa para ele. Quando chegou a mãe, vi o Paulo a deambular pelo corredor e a olhar sempre para o Gabinete de Enfermagem. Senti que ele queria falar comigo. Fui retirar um soro e fazer uma heparinização de um catéter e ele veio atrás de mim, mas quando viu um outro doente no Gabinete de Enfermagem comigo, recuou. Quando eu terminei fui finalmente ter com ele. Percebi que todo o meu esforço tinha sido recompensado. Consegui criar uma relação empática com o Paulo. Mal apareci no corredor, o Paulo dirigiu-se a mim. Trocámos mais umas palavras, mais uma ou outra brincadeira, mais uns sorrisos, mais uns apertos de mãos e mais uns “calduços” na cabeça. Foi então que viro-me para o Paulo e lhe disse: ”Não te quero ver mais aqui, és um miúdo cheio de qualidades e só desejo-te que tu consigas atingir todos os teus objectivos”. Ele cheio de ternura responde-me: ”Desejo-te muita sorte e muita saúde”. Foi o momento mais alegre que vivi até hoje no estágio. Dei-lhe um abraço e não consegui conter as lágrimas. Apeteceu-me pedir-lhe uma dedicatória, oferecer-lhe alguma coisa, mas pensei que isso um dia mais tarde podia ser prejudicial e despoletar uma nova crise esquizofrénica, pois ele podia lembra-se do internamento hospitalar que teve e voltar a piorar o seu estado clínico.



Fiquei a olhar para o Paulo a ir-se embora e assim que ele fechou a porta de entrada, fechei-me na casa-de-banho a chorar. Perdi um doente, mas ganhei um amigo e embora ele não seja de Coimbra e talvez nunca mais o veja, nunca o vou esquecer e tenho quase a certeza absoluta que ele tão cedo, também não me vai esquecer.



Adeus Paulo!!!… Portate Bem!!!

publicado por Pica às 23:31
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